quarta-feira, 19 de março de 2014

A gente não se basta


Eu estava certa de ter aprendido a enlatar meus sentimentos.
Setorizar.
Um em cada gavetinha, no seu respectivo cantinho no coração, tirando de lá, quando quisesse.
Pensei que me mandava e caminhei orgulhosa de, no auge dos meus 20 e poucos, estar no controle da situação.

Mas, não. Felizmente a essência não muda com o tempo, não na maneira como a gente gosta das coisas e pessoas.
Não é porque o peito ficou um tempo sem suspirar que você enfodeceu, que aprendeu a matar no tal do peito.
Não.
O fato de ter ficado um tempo aí nessa pista, pra negócio, postando mil frases de amor-próprio nos perfis nas redes sociais e bancando a auto-suficiente, não quer dizer MESMO, que você aprendeu a se bastar.

Não, a gente não se basta.

Não me basto desde que dei de cara com esse sorriso que rasga a tua.
Desde que me apaixonei pela coreografia (sem ensaio, porém, sincronizada) do teu olhinho fechar enquanto a boca abre em riso, em beijo.
Desde que fui pega nesse abraço que me leva pra tudo que é canto, tipo brinquedo que criança arrasta pela casa.
Desde que você abriu os braços e fez um país pra eu morar, como naquela música.

A gente não se basta quando finalmente não se sente constrangido em calar e quer morar no silêncio confortável do outro.
Naquele silêncio que não deixa sem graça e não obriga a procurar um assunto.
Que não transforma aquelas horas de congestionamento na volta da praia, num terrível elevador de conversa boba, mas, num momento feliz de se olhar e só.

Desde que você chegou, não é bom ser sozinha e são essas coisas que fazem a gente descobrir que amadurecer não é, necessariamente, endurecer.

Kamila Valente

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