quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Era uma vez





Queria te dizer que no início eu fiquei preocupada com a temperatura. 
Tava gelado demais, cor azul-necrotério.
Parecia qualquer coisa sem vida, sem força. E eu bati, injetei adrenalina e nada do coração bater de novo.
Fiquei pensando se não era culpa das lascas que a gente tinha arrancado dele com precisão cirúrgica, nos últimos tempos.
Pensei no dia em que descobri que meu primeiro amor tinha arrancado uma florzinha do jardim lá da escola e dado a outra menina, no dia que meus pais se separaram e no dia que eu achei revista de mulher pelada na tua pasta de couro.
Pensei se não era porque tinha chegado a hora de parar de pulsar mesmo, se não era dos anos, se de repente não era isso mesmo, do coração parar de acelerar. Mas de tanto pensar, eu vi que não era nada disso.

Era só a tua parte nele que tinha infartado.

Por isso eu vim te dizer que a tua primeira prateleira está vazia, porque, se já não cabemos mais um no sonho do outro, a minha roupa não pode caber no teu armário, aliás, sempre quis te dizer que esse espaço que você separou pra mim era ridículo. Na vida, no roupeiro e no coração.
Na geladeira tem a cerveja toda daquele engradado, geladinha. 
Sim, porque eu também vim dizer que não vai ter mais eu vestindo tuas camisetas e arrastando minhas meias 3/4 até a cozinha, depois da aposta que eu sempre perco, tendo que trazer tua bebida.
Vim te dizer que eu cansei desse amor intercalado com ódio. 
E eu tô tentando alimentar raiva tua do início da playlist, só até chegar o Tom, com Chega de Saudade, te perdoando toda vez, com Samba da Volta no repeat.
A gente não se reconhece mais, e eu não atendo ligações, não aceito doces, nem divido histórias com estranhos.
Então, como naquele dia que você não teve coragem de me proteger do cara que meteu a mão na minha coxa, tendo euzinha que meter a minha mão na cara dele, eu tô aqui de novo. 
Fazendo o serviço sujo de encerrar esse nosso...não sei o nome.
Bom, quero avisar que só tô levando o que eu trouxe. Roupas, vaso com flor, alegria e vida.
Mas tem cerveja na geladeira e a internet tá paga.

Divirta-se campeão!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

No fim a gente morre.





Não consigo ver culpa em uma coisa só. Acho que foi tudo.
Foi um pouco de guerra entre os continentes. Foi o último bombom da tua caixa que eu roubei. Foi o troco a menos que me deram. Foi o troco a mais que alguém consentiu. Foi aquela verba que desviaram. Foi o tapa na cara. 
Aquela câmara de gás. O estupro. O abuso.
Foi aquele ônibus incendiado.
A sacola pesada no braço, que geral fez que não viu.  A mulher grávida em pé no ônibus. A mensagem no celular. A enrolação. A maldade.
Foi por tudo isso, talvez, que a gente desaprendeu a crer.
Foi aí no meio desse caminho escuro que a gente perdeu a hora do encontro lindo com a gentileza. 
A confiança no amor.

E isso virou um ciclo.

A gente caiu numa errada e agora é cada um por si e Deus...bom, tem que ter muita coragem pra acreditar nele também. 
Porque parece que ficou tão longe o céu da terra, que do nosso teto as preces não passam mais.
É como se uma nuvem espessa cobrisse tudo, todos, a ponto da graça não alcançar mais a gente. 
As gentes.
E se alguém tenta colorir, com um gestinho que seja, esse mundo cinza, instala-se o espanto.
É  como se houvesse uma mãe gritando alto pra gente não aceitar doce de ninguém.
Eu pequei, errei muito. 
Tentei adoçar uns azedumes, doar minhas mãos, cuidar dos tesouros que me entregaram, mas me disseram que precisavam ir, porque eu levava jeito pra coisa e ninguém é tão bom assim hoje em dia.
Percebendo que eu tinha sede de beber sonhos de canudinho pra engolir realizações, só me contaram pesadelos, pra que assim eu caísse na real. No mundo real.

Algumas pessoas teimam todos os dias em entregar seus corações, em doar a parte mais bonita de si.
Uma teimosia infantil que têm partido almas, porque em contrapartida, outras almas não são evoluídas o suficiente para digerir doçuras.
Se assustaram quando  eu pedi pra acreditarem que a vida é boa, e isso, já cantado com beleza pelos Novos Baianos, nunca fez tanto sentido.
Já perdemos o controle, mudamos o ditado pro mal sempre vencer.

Ser ruim, engrossar, estupidar, ta na moda. E quem não tem o poder de transformar o coração em pedra barata, fica aí pelos cantos lamentando as pérolas que já viraram colares nos pescoços dos porcos.

E assim a gente vai, devagarinho, sofrendo um tanto, depois um pouco menos, secando uma lágrima aqui, outra ali, até que tudo fique seco como um deserto e a gente possa viver em guerra, alcançando enfim, nosso objetivo que é o fim.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Riso




Eu não te conheço bem, mas de te olhar assim de lado, já deu pra sacar que você é daquelas pessoas simples.
Simples, não rasas.
Eu acredito, por exemplo, que você não é de ficar me olhando assim de lado imaginando se eu sou simples, funda ou rasa.
Você é fácil. Até quando é difícil.

Você não deve nem imaginar que quando eu te vejo, eu fico querendo um bloquinho pra escrever todas as frases de efeito que meu coração compõe. Daria música.
Mas aí você vai e eu esqueço de todas elas, porque não fica nada na mente quando você não fica.

Você é mais uma das pessoas que não tem nada em comum comigo.
A diferença é que, você, é a mais estranha delas.
E eu aprendi contigo a te adjetivar assim por que você vive se auto-intitulando grosseiro, bicho-do-mato, enquanto eu fico ali calada, sem discordar, só porque acho lindo o jeito de você se denegrir.

Depois, eu que não perco a mania de alimentar teorias da conspiração, fico pensando se você não quer me convencer que é suficientemente ruim, pra eu não me envolver nadinha. Mas hoje de manhã com a cabeça fria e com teu bom dia colorido, eu já achei que não é nada disso.

Você não pensa em nada.

Nem em teorias, nem em envolver, enquanto eu, penso até na morte da bezerra.

Me acordar com mensagens sem jeito, depois chegar lá em casa me afogando em beijos apaixonados.
Um apego meio desapegado.

E eu nunca sei onde guardo as mãos quando a gente passa na rua. Se eu procuro um copo pra ocupá-las, você me olha torto e diz pra eu segurar direito a tua.
E eu fico rindo da tua cara, sem saber nada, porque você tem um jeito lindo de não me deixar saber.

Tem um jeito desastrado de procurar com cuidado palavras pra explicar o que acha da minha história e antes mesmo de concluir o pensamento, olha a hora no telefone, quem passa na rua.
Sem cuidado, bate em mim como se eu fosse qualquer menino amigo seu.
Depois me mata, de pouquinho em pouquinho, com teu riso.  É como se fossem golpes nocauteando o coração.
Teu riso, não sorriso, me finaliza, se junta com o meu numa confluência que a gente já sabe onde termina.

E das outras coisas, eu não sei qual gosto mais.
Se é o jeito inquieto dos teus dedos entre os meus, enquanto me escuta.
Se é teu tom de voz despreocupado. A voz que foge arrastada.
Que me arrasta pro fundo do peito, lá onde a gente guarda pensamento e lembrança boa.

Eu ia perguntar se você podia ficar mais, mas você sempre responde com outra pergunta e eu não to preparada pra pergunta errada.
Você vai me dar um  “ ficar mais o quê?”, enquanto eu queria um “ ficar onde?”.
Aí eu vou treplicar puta da cara com um “ficar mais chato”, enquanto queria gritar um “ficar aqui.”